Gerty Theresa Cori, Nobel de Fisiologia ou Medicina, 1947


Gerty Theresa Cori: A primeira mulher americana a ganhar o Prêmio Nobel de Fisiologia.


 
Figura 1: Gerty Theresa Radnitz Cori, M.D., 1947.
 National Library of Medicine, Images from the History of Medicine.

Já imaginou que, ao olhar para a Lua ou para Vênus, ou mesmo pensar em diabetes, você lembraria de alguém? Pois bem, não deixe de conferir as curiosidades no final da página!

A senhora Gerty nasceu em Praga, República Checa – país ao lado da Alemanha – em 15 de agosto de 1896, e faleceu como bioquímica estadunidense em Saint Louis, no dia 26 de outubro de 1957. Até os 10 anos, Gerty recebeu sua educação primaria em casa, antes de entrar no Liceu para meninas, em 1906. Seu pai era um químico que desenvolveu um método para refinar o açúcar e se tornou um gerente bem-sucedido de refinarias de açúcar. Sua mãe, uma mulher culta, era amiga de Franz Kafka, um romancista influente.
Gerty estudou para o vestibular e ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Alemã de Praga, em 1914 (algo bastante incomum para as mulheres na época), onde conheceu o seu futuro marido –  Carl Ferdinand Cori. É válido ressaltar que Gerty não atendia aos requisitos mínimos para ingressar na referida universidade (conhecimentos em latim, física, química e matemática), o que a fez aprender em um ano os cinco anos equivalentes dos respectivos cursos. Logo, entende-se que Gerty cresceu em uma época em que as mulheres eram marginalizadas na ciência e tinham poucas oportunidades.

  

Figura 2: Gerty Cori e seu marido, Carl Cori no laboratório na Washington University School of Medicine, St. Louis, 1947. Becker Medical Library, Washington University School of Medicine.

Preconceito por ser mulher!

Carl partiu primeiro para a América, depois de aceitar um emprego no Instituto Estadual para o Estudo de Doenças Malignas em Buffalo, Nova York, em 1922. Gerty ficou para trás em Viena, no hospital infantil, esperando até que pudesse encontrar trabalho na América. Naquela época, não era comum um casal viver separado por muito tempo, e era uma prova da independência de Gerty e da dedicação à carreira o fato de ela ficar sozinha em Viena. O curioso é que na luta de tentar encontrar um emprego no mesmo instituto que Carl, foi dito à Gerty, durante uma entrevista, que seria “antiamericano” permitir que um casal trabalhasse junto. Finalmente, seis meses depois, Gerty conseguiu um emprego no mesmo instituto de Carl, e foi trabalhar com ele em Buffalo. Porém, como mulher, Gerty foi empregada em condições muito menos favoráveis do que o marido; esse ocorrido foi na Washington University,  Saint Louis, no Missouri, em 1931. E, ainda assim, ela precisou esperar 13 anos para atingir o mesmo grau na academia que o marido. Ou seja, Gerty só tornou-se professora titular em 1947, ano em que junto com Carl recebeu o Prêmio Nobel "por sua descoberta do curso da conversão catalítica do glicogênio".

Carl e Gerty Cori e o metabolismo dos carboidratos

Em brilhante colaboração, Carl e Gerty Cori estudaram como o corpo metaboliza a glicose e avançaram na compreensão de como o corpo produz e armazena energia. Suas descobertas foram particularmente úteis no desenvolvimento de tratamentos para diabetes. Em 1947, o casal compartilhou o Prêmio Nobel por suas descobertas. (National Historic Chemical Marcos da American Chemical Society, 2004, tradução nossa). O casal Cori, que viria a receber o Prêmio Nobel, tinha como lócus em seu interesse e pesquisa saber como o corpo utiliza a energia. Nessa perspectiva, em 1929, o casal veio a descrever o que é conhecido como ciclo de Cori.

 
Figura 3: Esquema geral do ciclo de Cori.
Fonte: Wikimedia Commons; Domínio Público.

As setas em vermelho (tracejado) mostram a direção das reações metabólicas envolvidas no ciclo numa situação de esforço físico. As setas em verde (pontilhado) demonstram as reações que ocorrem no período de reoxigenação (descanso). Além do ciclo de Cori, eles também descobriram um composto importante, o componente imediato responsável pela quebra do glicogênio, chamado de glucose 1-fosfato, conhecido agora como éster de Cori, representado na figura a baixo:

 
Figura 4: Glucose 1-fosfato.
Fonte: Wikimedia Commons; Domínio Público

A interação entre a glicose e o glicogênio está no cerne do que é conhecido como o "ciclo de Cori". O casal Cori descobriu que a insulina aumentava a oxidação da glicose, ocorrendo a sua conversão em glicogênio no músculo, assim como no fígado. A epinefrina, ou adrenalina, atuava ao contrário, diminuindo o glicogênio muscular e o glicogênio hepático. Como outros pesquisadores estabeleceram que o glicogênio muscular não contribuía significativamente para a glicose no sangue, os Coris concluíram que o glicogênio muscular deve formar uma substância intermediária que então circula pelo sangue até o fígado, teorizando - e eventualmente demonstraram - que esse intermediário era o ácido láctico; parte integrante do "ciclo dos carboidratos" ou o "ciclo de Cori". (tradução nossa)

CURIOSIDADES
Você não se perguntou:
        1)    Por que Gerty estudou em uma escola somente para meninas?
        2)    Por que o casal Cori se mudou para os Estados Unidos?

Muito bem, vamos lá!

Para responder a primeira curiosidade, é necessário saber que as escolas para meninas naquela época não eram tão desafiadoras quanto às escolas para meninos, e muitas vezes davam mais atenção em ensinar as meninas a serem jovens adequadas do que em nutrir suas mentes. Ademais, naquela época, havia escolas para meninas e escolas para meninos.

Em relação a segunda curiosidade, para responder o porquê de o casal se mudar de tão longe, e ao que parece, as pressas, é preciso entender que Gerty e Carl começaram a colaborar na pesquisa enquanto ainda eram estudantes. Infelizmente, nesse mesmo período, a Primeira Guerra Mundial (1914) logo forçou Carl a interromper os seus estudos para servir no exército austríaco. Gerty trabalhava em um hospital infantil e Carl em um laboratório. Após a guerra, os tempos foram difíceis para todos os europeus, e a comida era escassa. Gerty recebeu suplementos dietéticos em seu hospital, mas os recusou, sentindo que os pacientes precisavam deles mais do que ela. Ela, então, desenvolveu xeroftalmia – uma doença relacionada à deficiência de vitaminas. Isso, combinado com o crescente antissemitismo na Áustria, levou os Coris, ambos judeus, a imigrarem para os Estados Unidos.

Carl Cori e Gerty Radnitz se conheceram em 1914 - no início da Primeira Guerra Mundial - quando entraram na Universidade Carl Ferdinand, em Praga, para estudar medicina.

Você sabia que existe uma cratera na lua e uma cratera no planeta Vênus, ambas nomeadas “Cratera de Cori”, em honra ao casal Cori?! 😍

Gerty Cori, em meio ao preconceito e as injustiças, melhorou a compreensão sobre a diabetes! 


Por Rene Miguel e Everton Bedin


QUER LER MAIS SOBRE? ACESSE
Her Lab in Your Life. Flying, hopping, and rolling; Gerty Theresa Cori. Disponível em: https://web.archive.org/web/20100620083837/http://chemheritage.org/women_chemistry/body/cori.html.

REFERÊNCIAS

Marcos Químicos Históricos Nacionais da American Chemical Society. Carl e Gerty Cori and Carbohydrate Metabolism. Disponível em: http://portal.acs.org/portal/PublicWebSite/education/whatischemistry/landmarks/carbohydratemetabolism/index.htm. Acesso em: 21 set. 2020.

Gerty Cori – Facts. NobelPrize.org. Nobel Media AB 2020. Sun. Acessado 21 de setembro de 2020. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1947/cori-gt/lecture/. Acesso em: 15 set. 2020.

Chemical Heritage Foundation. Flying, Hopping and Rolling. hemheritage.org. Disponível em: https://web.archive.org/web/20100620083837/http://chemheritage.org/women_chemistry/body/cori.html. Acesso em: 21 set. 2020.

SHEPLEY, Carol Ferring (2008). Movers and Shakers, Scalawags and Suffragettes: Tales from Bellefontaine Cemetery. St. Louis, MO: Missouri History Museum. Acessado 21 de setembro de 2020. Disponível em: https://archive.is/20130112134515/http://portal.acs.org/portal/PublicWebSite/education/whatischemistry/landmarks/carbohydratemetabolism/index.htm. Acesso em: 21 set. 2020.

Observatório Lunar Vaz Tolentino, BH / MG - BRASIL. Crateras-Femininas. Disponível em: http://vaztolentino.com/conteudo/816-Crateras-Femininas. Acesso em: 21 set. 2020.


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