Betty Williams, Nobel da Paz, 1976

 Betty Williams, muito mais que uma dona de casa

Olá a todas e todos, como vocês estão? Nós estamos ótimas e muito animadas para a nossa viagem no tempo de hoje! Vem com a gente?

 Hoje nós iremos para a capital da Irlanda do Norte, a cidade de Belfast, na ilha da Grã-Bretanha. Em 22 de maio de 1943, nasceu lá a primeira filha de uma família um pouco incomum para a época, formada por uma mulher católica e um homem protestante. Seu nome era Elizabeth Smyth, também conhecida como Betty. Aí vocês podem nos perguntar, “mas por que essa família era incomum?”, mas a gente já te conta!


Nós estamos em um país teoricamente laico e, por isso, as disputas que envolvem religião podem parecer menos corriqueiras aqui no Brasil. Mas a Irlanda do Norte vive em um conflito religioso que se iniciou há muito tempo, na Idade Média, e que tem tudo a ver com a história da Betty Smyth. Nesse caso, por causa de questões étnicas, políticas, econômicas e sociais, o conflito se estabeleceu tendo católicos de um lado (como a mãe de Betty) e protestantes do outro (igual ao pai de Betty). E, durante o século XX, as tensões se acirraram ainda mais, havendo grupos armados dos dois lados: o Exército Republicano Irlandês (IRA, em inglês), que era católico; e os movimentos unionistas, que eram formados por protestantes.

 Betty nasceu e cresceu nesse contexto de tensões religiosas em sua terra natal. Ela estudou em escolas católicas, mas seu pai, que era açougueiro, tentou mantê-la livre das intolerâncias religiosas que a cercavam por todos os lados. Apesar de ter escolhido seguir o catolicismo, Betty respeitava as pessoas de outras religiões.

 Betty Smyth, mais tarde, se casou com um engenheiro da marinha que era protestante e passou a se chamar Elizabeth (Betty) Williams. Juntos, Betty e seu marido conheceram alguns lugares do mundo, porém eles retornaram à cidade de Belfast, onde tiveram dois filhos. Por causa do salário de seu marido, Betty pode focar-se em criar as duas crianças, mas eventualmente ela arrumava empregos para obter uma renda extra. Betty não tinha dificuldades para encontrar trabalhos, mas era difícil ela se manter no mesmo emprego por muito tempo. Diziam que ela era “cabeça dura” ou “insubordinada”.

Infelizmente, Betty teve contato com a violência várias vezes em sua vida, por causa do constante clima de tensões que pairava sobre a Irlanda do Norte. Ela teve dois primos assassinados, uma pessoa de sua família foi executada por protestantes, um carro bomba do IRA matou alguns outros familiares, uma multidão colocou fogo na casa de sua irmã, além de muitos outros momentos trágicos na trajetória de Betty.

 E foi por causa dessas várias tragédias que atingiram Betty Williams pessoalmente, e outras que aconteciam com frequência ao seu redor, que ela começou a se sensibilizar com o conflito e a defender que todas as vidas eram importantes e precisavam ser protegidas, independentemente da religião.

 Betty Williams - Fonte: Landesarchiv Baden-Württemberg; Licença: CC BY 3.0

No ano de 1976, Betty tinha 34 anos de idade e trabalhava como secretária e garçonete, além de ser mãe e dona de casa. Imaginem só quantas coisas ela precisava lidar, além da constante violência que a cercava!

 Mas nós queremos saber de vocês: já ouviram falar das jornadas múltiplas femininas? É bem comum as mulheres acumularem funções como trabalhar em empregos formais, cuidar da casa, da família e várias outras coisas. Essa era a vida de Betty: trabalhadora, mãe e dona de casa. Uma vida bem parecida com a de várias mulheres que conhecemos, não acham? Pois bem, até agosto de 1976, Betty era uma mulher com uma rotina comum em Belfast e, apesar do desconforto que os conflitos religiosos lhe causavam, ela não era uma pessoa pública engajada no ativismo. Mas então, houve um fato que mudou sua trajetória para sempre.

 Em uma entrevista ao ativista canadense Craig Kielbuger, Betty Williams contou o que aconteceu no dia 10 de agosto de 1976:

 “[...] faz 32 anos agora, mas eu posso ver aquilo como se fosse hoje, aconteceu hoje. E eu estava voltando da casa da minha mãe [...] e minha filha estava no carro comigo, Deborah, e estávamos subindo a estrada principal para virar para onde eu morava e ouvi tiros. E você sabe que está realmente doente ou que vive em uma sociedade muito doente quando consegue distinguir tiros. Eu conseguia distinguir tiros. Eu sabia a diferença entre um rifle Armalite que era usado por organizações terroristas e um rifle de auto-carregamento [SLR] usado pelo Exército Britânico. E eu ouvi os tiros de Armalite ressoarem primeiro e então ouvi o tiro de retorno do SLR. E eu me lembro de me inclinar e empurrar minha filha para baixo no carro porque eu achei que aqueles tiros estavam muito perto, [...] minha filha [...] tinha quatro [anos] e eu a empurrei no carro e enquanto nós viramos para baixo, aí ouvi um carro dando a volta na direção oposta e parei para deixar ele passar e ele subiu na calçada e [...] desculpe, isso é muito difícil para mim [...] o carro atingiu os filhos dos Maguire e a mãe deles e eu vi aquilo [...] desculpe, não posso mais falar sobre isso.”[i]

 No incidente, em que houve a perseguição de um fugitivo do IRA pelas autoridades britânicas, quatro pessoas foram atingidas pelo carro do extremista, que após levar um tiro, perdeu o controle do veículo. As três crianças da família Maguire faleceram e somente a mãe, Ann Maguire, sobreviveu. Esse episódio marcou para sempre a história de Betty e ela resolveu que não poderia deixar aquilo passar! Ela decidiu que precisava fazer algo para acabar com aquela violência sem sentido causada pela guerra entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte. Então Betty Williams, munida de papel e caneta, saiu pelas ruas de Belfast procurando pessoas que se importavam com tantas vidas perdidas. Em apenas dois dias, Betty já havia coletado seis mil assinaturas em uma petição pela paz e, assim, ela conseguiu a atenção da mídia.

 Ao mesmo tempo, a irmã de Ann, tia das crianças falecidas, foi entrevistada em rede nacional sobre o ocorrido. Seu nome era Mairead Corrigan (spoiler: fiquem ligadas e ligados no texto da semana que vem!) e ela pediu pelo fim da guerra que assolava a Irlanda do Norte. Então, Mairead ficou sabendo da iniciativa de Betty após o incidente e de como aquela tragédia havia mexido com Betty, pessoalmente. Ela convidou Betty para sentar-se ao seu lado durante o funeral de seus sobrinhos e, a partir desse momento, elas se tornaram grandes amigas e aliadas na luta pela paz na Irlanda do Norte.

 Juntas, Betty e Mairead fundaram a organização “Women for Peace” (“Mulheres pela Paz”, em tradução livre), que depois passou a se chamar “Community of the Peace People” (“Comunidade das Pessoas pela Paz”, em tradução livre). O que começou com um abaixo assinado, logo ganhou grandes proporções. Elas planejaram protestos para chamar atenção para a causa pela paz, mesmo Betty reconhecendo que essa iniciativa poderia ser perigosa. E ela estava certa, infelizmente.

 Betty Williams recebeu ameaças de morte pelo telefone e, após isso, viu pessoas escrevendo “Shoot Betty” (“Atire em Betty”, em tradução livre) nos muros de Belfast. Mas isso não impediu sua luta! A marcha pela paz aconteceu e contou com a presença de 10.000 mulheres protestantes e católicas que caminharam até os túmulos das crianças, ocorrendo ataque dos membros do IRA nessa primeira manifestação. Na semana seguinte, Betty e Mairead lideraram outra marcha pela paz com 35.000 participantes, dessa vez, sem incidentes. Nos seis meses seguintes, elas organizaram manifestações semanais em toda a Irlanda e no Reino Unido, com a participação de milhares de pessoas, a maioria mulheres. Nesse período, houve uma queda de 70% no índice de violência.

 Por causa da sua luta pela paz na Irlanda do Norte, Betty Williams recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1976, ao lado de sua amiga Mairead Corrigan. Vamos ver o que ela disse em seu discurso?



Pouco tempo depois, o movimento pela paz na Irlanda do Norte se desintegrou em 1978, por causa de desentendimentos internos e devido aos rumores espalhados por extremistas católicos e protestantes contra a organização. Mas Betty não parou! Ela se mudou para os Estados Unidos da América (EUA) em 1982 com seu segundo marido e, a partir de então, passou a realizar muitas palestras pelo país. Também se tornou professora visitante de Ciência Política e História na Universidade Pública Sam Houston, no Texas.

 Ela continuou lutando pela paz, em especial, lutando pelas crianças. Viajou pelo mundo gravando testemunhos de crianças que foram submetidas a horrores inacreditáveis. Em suas viagens, tornou-se evidente para Betty que para criar as mudanças necessárias e persuadir os governos a ouvir as vozes de sua população, mudanças legislativas deveriam ser implementadas, para proteger as crianças.

Betty Williams - Fonte: Manfred Werner; Licença: CC BY-SA 3.0

Betty Williams fundou “The Global Children’s Studies Center” (“Centro de Estudos sobre as Crianças”, em tradução livre), em 1992, além de participar e liderar muitas outras iniciativas em busca de proteger as crianças.

Em 2004, Betty retornou para a Irlanda e, em 2006, juntamente com outras cinco laureadas com o Nobel da Paz, ela criou o “Nobel Women's Initiative” (“Iniciativa das Mulheres do Nobel”, em tradução livre), para promover a paz, a justiça e a equidade para as mulheres.

 Mas isso não é tudo! Betty Williams jamais deixou de lutar pela paz, principalmente defendendo a educação, a tolerância intercultural e inter-religiosa, o anti-extremismo e os direitos das crianças. Betty Williams faleceu em 17 de março de 2020, aos 76 anos, em sua cidade natal, Belfast.

 E então, o que acharam? A vida de Betty é uma grande inspiração para nós e esperamos que seja para vocês também! Quaisquer que sejam as nossas escolhas, assim como Betty, sonhamos e lutamos por um mundo tolerante e justo para todas e todos!


 Abraços apertados a distância, cuidem-se e até a próxima!


Por Gabriela Ferreira e Glaucia Pantano



Infográfico: Amanda Ribeiro da Rocha

Algumas curiosidades sobre Betty Williams

Em entrevista ao ativista canadense Craig Kielbuger, Betty comentou que muitas vezes desacreditavam de sua luta, dizendo que ela não passava de uma dona de casa.

 

Um pouco mais sobre Betty Williams

ABRAMS, Irwin. The Nobel Peace Prize and the Laureates: An illustrated biographical history 1901 – 2001. USA: Science History Publications, 2001.

DAVIS, Anita Price; SELVIDGE, Marla J. Women Nobel Peace Prizes Winners: 2. Ed. North Carolina: McFarland & Company, Inc., Publishers, 2016.

Entrevista para Craig Kielbuger, na íntegra, está disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=OIJFNpPqj-w>. Acesso em 12 out. 20.


Referências

ABRAMS, Irwin. The Nobel Peace Prize and the Laureates: An illustrated biographical history 1901 – 2001. USA: Science History Publications, 2001.

BETTY Williams. Iowa State University – Archieves of Women’s Political Communication, c2020. Disponível em: <https://awpc.cattcenter.iastate.edu/directory/betty-williams/>. Acesso em 12 out. 20.

DAVIS, Anita Price; SELVIDGE, Marla J. Women Nobel Peace Prizes Winners: 2. Ed. North Carolina: McFarland & Company, Inc., Publishers, 2016.

Enclyclopaedia Britannica. Betty Williams, 2020. Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Betty-Williams>. Acesso em: 10 out. 20.

Qual é o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda? Super Interessante, 4 jul. 2018. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-e-a-causa-do-conflito-entre-catolicos-e-protestantes-na-irlanda-do-norte/>. Acesso em 12 out. 20.

The Nobel Prize. Betty Williams Biographical, c2020. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/peace/1976/williams/biographical/>. Acesso em 12 out. 20.

The Nobel Prize. Betty Williams Facts, c2020. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/peace/1976/williams/facts/>. Acesso em 12 out. 20.



[i] Transcrição da entrevista original: “[...] it’s 32 years ago now, but I can see that as though it was today, it happened today. And I was driving home from my mother’s [...] and I had my daughter in the car with me, Deborah, and we were driving up the main road to turn off to where I lived and I heard shots ring out. And you know that you’re really sick or you live in a very sick society when you can distinguish gunfire. I could distinguish gunfire. I knew de difference between an Armalite rifle which was used by the terrorist organizations and a self-loading rifle which was used by the British Army. And I heard the Armalite shots ring out first and then I heard the return fire of the SLR. And I remember leaning over and pushing my daughter down in the car because I thought those shots were awfully close, [...] my daughter [...] was four [years old] and I pushed her down in the car and as we turn down, then I heard a car coming around the other way and I pulled over to let it pass me and it careened up the pavement and [...] I’m sorry, I have a real hard time with this [...] it slammed into the Maguire children and their mother and I saw that [...] sorry, I can’t talk anymore about it.”.



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