Louise Elisabeth Glück, Nobel de Literatura, 2020

A poetisa norte-americana que encantou o mundo e é considerada uma das mais relevantes escritoras da geração.


A última ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, em 2020, Louise Glück é apenas a segunda poetisa a ser laureada com a premiação, depois de Wisława Szymborska em 1996. Isso porque, a Academia Sueca costuma laurear romancistas nesta área. Até agora, dos 117 Prêmios Nobel de Literatura, apenas 16 foram atribuídos a mulheres. Isso é algo profundamente desigual, visto que apesar de sermos a metade da população mundial, somos sub representadas e menos premiadas. E é válido ressaltar que não é meramente pelo entusiasmo de ganhar um Prêmio importante e cobiçado, mas passa por uma questão de representatividade. Os laureados pelo Nobel, além de receberem uma quantia em dinheiro, são mundialmente reconhecidos como referência em suas áreas. Podem receber mais apoio e financiamento. Serão marcados na história e inspirarão uma geração de pessoas. Por isso, ter mulheres premiadas, além do fator da igualdade, é uma maneira de espelhar as gerações seguintes a valorizarem e reconhecerem mulheres.


História de vida

Louise Elisabeth Glück nasceu em 22 de abril de 1943 em Nova York. Ela é filha de imigrantes húngaros de origem judaica. Na sua infância, com aproximadamente 7 anos, o amor pela poesia já existia e ela brincava de escolher “o poema mais bonito do mundo”. 

"Os poemas que mais ardentemente me atraíram ao longo de toda a minha vida são os [...] de escolha íntima ou de convergência, poemas para os quais o ouvinte ou leitor faz uma contribuição essencial, como receptor de uma confidência ou de um protesto, às vezes como cúmplice em uma conspiração."

Louise Glück

Louise mora atualmente na cidade norte-americana Cambridge, Massachusetts. Ela é poetisa e professora de inglês na Universidade Yale, em New Haven, Connecticut. Deu aulas de poesia em várias universidades, como Harvard. Em suas narrativas, Glück não preza por métricas rígidas ou formalidades engessadas, ela busca a clareza e precisão das ideias. Em sua formação, teve William Shakespeare, Emily Dickinson e William Blake como referências. A temática de suas obras têm influência dos mitos e da mitologia clássica. Engloba também a vida familiar e a infância, não tornando, entretanto, obras de cunho pessoal, pois ela sempre busca a universalidade dos sentimentos. Para o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marco Lucchesi, Glück tem uma maturidade poética única e “tem uma marca especial, própria, atravessada por todas as dúvidas da modernidade, com poucas certezas e com um desejo de encontrar-se dentro de seu labirinto". Segundo ele, um resumo em poucas palavras sobre a poesia de Louise Glück seria a de que “ela tem todas as vozes graves, trombone, contrabaixo, violoncelo e a gravidade, mas com voz de flauta, delicadíssima." Apesar da poetisa escrever sobre temas duros, o faz com sutileza.


Fotografia antiga de Louise Glück.

Fonte: Wikimedia Commons; Domínio Público.

Glück é autora de doze livros de poemas e duas coletâneas de ensaios. A primeira obra publicada pela autora foi o livro de poemas “Firstborn” (Primogênito, em tradução livre), em 1968. A temática é sobre vidas ceifadas de pessoas com deficiência física, devastação de terras e falta de amor. Conta com várias vozes raivosas de personagens em primeira pessoa, e apesar do descontentamento de alguns especialistas, foi muito aclamada por outros devido à métrica e rima encantadora. Em “The Triumph of Achilles” (O Triunfo de Aquiles, em tradução livre) de 1985, Glück escreve sobre mitos clássicos, Bíblia e contos de fadas. Perpassa sobre assuntos como envelhecimento, amizade, esperança e luto. Em “Ararat”, (1990), a poetisa aborda a família, dando luz a vida de seus pais, como a incapacidade da mãe de demonstrar sentimentos e a vida vazia de seu pai. 


Gratidão

Não pense que não sou grata por tuas pequenas

gentilezas.

Gosto de pequenas gentilezas.

De fato as prefiro à gentileza mais

substancial, que está sempre a te cravar os olhos,

feito um grande animal sobre o tapete

até que tua vida inteira se reduza

a nada além de levantar manhã após manhã

embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.

Louise Glück (tradução por Pedro Gonzaga)


A escrita da coleção “The Wild Iris” (1992), sobre o retorno da vida após um período de inverno, foi muito elogiada e concedeu a ela o Prêmio Pulitzer, o qual é dado a escritores de excelência. Essa obra aborda a relação entre seres humanos e a natureza, além da mortalidade, identidade e consciência. O livro “Vita Nova” de 1999 - título que remete a obra La Vita Nuova, do escritor italiano Dante Alighieri - fala de questões que afligem as pessoas: morte, recomeços, ressignificações. “Averno” de 2006 remete ao nome de um pequeno lago em uma cratera no sul da Itália. Os poemas são marcados pela dureza do momento presente e lamentações. Sua última coleção “Faithful and Virtuous Night” (Noite fiel e virtuosa, em tradução livre), de 2014, levou Glück a receber o National Book Award, um dos prêmios mais aclamados dos Estados Unidos. Nesta obra, Glück aborda o tema da morte com graça e leveza, impressionando o leitor.


Por que ganhou o Nobel?

Louise Glück ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2020, aos 77 anos, “por sua inconfundível voz poética que, com austera beleza, torna universal a existência individual”.

“Acredito que, ao me conceder esse prêmio, a Academia Sueca está escolhendo homenagear a voz íntima e privada, algo que a expressão pública pode às vezes ocultar e esconder, mas nunca substituir”

Louise Glück


Violetas

Porque em nosso mundo

alguma coisa sempre escondida,

pequena e branca,

pequena e o que chamas

pura, não lamentamos

como lamentas, caro

mestre sofredor; tu

não está mais perdido

do que nós, sob

o pilriteiro, o pilriteiro que sustenta

harmônicas bandejas de pérolas: o que

te trouxe entre nós

que te ensinaríamos, embora

ajoelhes e chores,

juntando tuas grandes mãos,

em toda a tua grandeza nada

sabendo da natureza da alma,

que nunca há de morrer: pobre deus triste,

ou nunca tiveste uma

ou nunca perdeste uma.

Louise Glück (tradução por Maria Lúcia Milléo Martins)


Por Alana D’Ornelas, Jéssica Jamal e Clarice D. B. Amaral





Para saber mais

Para receber a notícia de que havia sido a laureada do Nobel daquele ano, Louise Glück passou por uma situação inusitada. Foi acordada pelo telefonema às 7h da manhã do secretário da Academia Sueca. Sem acreditar no que ouvia, pediu alguns minutos para se preparar para a entrevista. Não acreditava que uma mulher norte-americana branca ganharia o Nobel de Literatura e disse que perderia seus amigos por este fato. Você pode conferir mais sobre essa história nesta entrevista que a poetisa realizou com o New York Times. Além disso, no canal Nobel Prize há a famosa ligação recebida pela poetisa pela manhã.

Uma das características do período de pandemia de COVID-19 foi a que os eventos passaram a se adaptar a serem exibidos remotamente. Foi o caso da premiação do Nobel de 2020. A gravação da cerimônia está disponível no canal do Youtube Nobel Prize e pode ser acessada aqui. A partir do minuto 55 do vídeo é possível ver a premiação de Louise Glück.

Ficou curiosa(o) em ler mais poemas da laureada do dia? Neste site é possível ler algumas das obras feitas por Glück. Vale lembrar que com a tradução dos poemas do inglês para o português há inevitavelmente uma perda do lirismo dado pela poeta na língua na qual o poema foi escrito originalmente. Ainda assim, são belíssimos e merecem ser apreciados!

Recentemente, a Companhia das Letras lançou uma edição única com a junção de 3 livros escritos por Louise Glück: Averno, Uma vida no interior e Noite fiel e virtuosa.


Referências

Bibliographycal notes. The Nobel Prize. Disponível em: https://www.nobelprize.org/prizes/literature/2020/bio-bibliography/ Acesso em 11 ago 2021.

Firstborn, poetry by Glück. Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Louise-Gluck Acesso em 11 ago 2021.

Louise Glück. Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Louise-Gluck#ref663000 Acesso em 11 ago 2021.

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